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domingo, 6 de setembro de 2009

COMUNICAÇÃO E SEMIÓTICA EM THE SIMS – O GAME COMO MEDIADOR DA COMUNICAÇÃO REAL E VIRTUAL ATRAVÉS DE SIGNOS E AVATARES Monografia - Pré Projeto



Entre os seres humanos o jogo não se limita apenas à infância; ao contrário, o ser humano aprecia o jogo e as brincadeiras até o fim de sua vida, até a morte. Os jogos têm finalidade de nos ajudar na adaptação à realidade, além de facilitar sobremaneira o aprendizado, o comportamento cognitivo.
Ivan Bystrina.


A emergência da vida contemporânea bem representada e reforçada pelos meios telemáticos levou-nos a rever a sociedade sob seus mais diversos aspectos. Vivemos a cultura da instantaneidade, do imediatismo, onde a conexão é imprescindível e só através dela nos sentimos inseridos neste novo contexto social, como indivíduos produtivos e agentes sociais ativos. De fato, o acesso as novas mídias vem se configurando como uma necessidade primária, e sua abrangência vem cada vez mais, ultrapassando os limites da estratificação social. São visíveis alguns exemplos de como essas novas tecnologias conseguem alcançar diferentes camadas sociais. Lembro-me de como no início dos anos 90 as antenas parabólicas eram a novidade do momento, e sua rápida popularização trouxe aos usuários uma nova forma de receber informação e entretenimento, via satélite, diretamente em seus aparelhos de televisão, dispensando a retransmissão, das conhecidas “repetidoras” populares nos interiores, assim como as “rádios difusoras”.
Hoje, a internet e todas as suas aplicações passam por este mesmo processo, e como há algum tempo sua utilidade e indispensabilidade ao desenvolvimento humano se fez afirmar, políticas públicas de inclusão digital são implementadas para que todos possam estar dentro desta nova realidade, que apesar de não representar mais novidade para aqueles que dela já dependem completamente, ainda não existe na vivência de muitos.
A comunicação atravessa um período que, talvez, seja o mais paradoxal, onde os papéis do comunicador e dos meios passam por constantes adaptações, os instrumentos mediadores da comunicação desenvolveram novas funções, o telefone celular, há muito, deixou de ter como única utilidade o ato de fazer e receber ligações, mas é, hoje, devido a sua multifuncionalidade, um ícone da democratização da comunicação. Com seus arquivos de som e suas câmeras de vídeo, esses aparelhos desafiam os ditadores hodiernos que, sem dúvida, têm mais dificuldades em esconder a realidade ou maquiá-la. O caso mais recente é o do Irã, onde a imprensa internacional foi proibida de entrar em território iraniano e o mundo ficaria apenas com as verdades das emissoras de TV estatais se não fossem o celular e suas câmeras, a internet e sua capacidade de agregar todos esses objetos em um único campo. O You Tube, os fóruns de debate on-line, as câmeras digitais, que não servem apenas para registrar as férias e festas em família, modificando conceitos, nos dando mais essa modalidade jornalística, o open-source. A carta, o e-mail, o Messenger, com sua resposta imediata, que de tão imediata alterou até a lingüística: para escrever com maior rapidez palavras são reduzidas a duas ou três letras apenas. O Skype, com sua característica hipermidiática: não apenas falo com meu interlocutor, mas posso lhe enviar arquivos de texto, som, vídeo enquanto o vejo pela tela do computador em tempo real. A hipermídia disponibiliza a informação Full time e, como doutrina a publicidade de uma empresa de telefonia móvel, “conectado, você faz coisas incríveis.”
Na vigência dessa nova realidade nos deparamos com produtos que vão ainda mais além e se propõem a modificar os processos de construção dos relacionamentos humanos e das formas de representá-las, dessa forma:

[...] o desenvolvimento dos meios de comunicação fez surgir novos tipos de “ação à distância” que se tornaram cada vez mais comuns no mundo moderno. Enquanto nas mais antigas sociedades as ações e suas conseqüências eram geralmente restritas aos contextos de interação face a face e às suas circunvizinhanças, hoje é comum ver os indivíduos orientarem suas ações para outros que não partilham o mesmo ambiente espaço-temporal, e com conseqüências que ultrapassam de muito os limites de seus contextos e localizações. (THOMPSON, 1998, p.92)

Assim, citamos os exemplos dos sites de relacionamento, como o Orkut, programas de simulação como o Second Life e o brilhante game The Sims que, em sua terceira versão, aparece não apenas como mais um instrumento midiático de construção de relacionamentos, mas, sobretudo como um espelho da realidade, uma das representações mais geniais da condição pós-moderna do homem, com seu hibridismo, sua semiótica, traçando novos paradigmas e deixando ainda mais tênue a linha entre o real e o virtual.

O The Sims foi lançado no início do ano 2000 e em apenas um mês foi apontado como um dos games mais vendidos pelo instituto de pesquisas norte americano PCDATA, logo depois, a empresa criadora a Eletronic Arts / EA Games – confirmou a liderança. Em uma análise de mercado, e assim sendo, direcionada a partir de outra lógica, as características do produto como a interatividade e realidade poderiam ser apontadas como determinantes para tal mérito, entretanto o jogo desperta questões curiosas, e abre possibilidades de estudo nas áreas da psicologia, engenharia, gestão de negócios, marketing e comunicação. O trabalho aqui proposto se aterá especialmente ao campo da semiótica.
Não há como jogar The Sims sem associá-lo imediatamente a Simulacra and Simulation de Baudrillard ou compará-lo a outros produtos da indústria midiática com as características do simulacro, como os filmes Hollywoodianos Matrix e The Truman Show. A comparação é inevitável, pois é exatamente no ambiente do simulado, da realidade adequada as nossas necessidades, muitas delas não satisfeitas, que o jogador aparece como controlador de um universo de personagens virtuais, dos quais ele mesmo pode ser um, cuidando da vida pessoal, afetiva, financeira, profissional e até de atividades como cozinhar, limpar a casa, aprender, se divertir, ir ao banheiro ou tomar banho.
Quando jogado on-line, existe a possibilidade de interagir com outras pessoas, representadas pelos seus respectivos avatares, essa modalidade nos indica novas formas de comunicação e representações sociais. No livro Sociedade Midiatizada, Muniz Sodré chama atenção para este aspecto.

[...] A midiatização pode ser pensada como um novo bios, uma espécie de quarta esfera existencial com uma qualificação cultural própria (uma tecnocultura) historicamente justificada pelo imperativo de redefinição do espaço público burguês. A questão inicial é a de se saber como essa qualificação atua em termos de influência ou poder na construção da realidade social (moldagem de percepções, afetos, significações, costumes, e produção de efeitos políticos) desde a mídia tradicional até a novíssima, baseada na interação em tempo real e na possibilidade da criação de espaços artificiais ou virtuais. (SODRÉ, 2006, p. 22)


Levando em consideração o vasto fluxo informacional oferecido pelas novas mídias e o imenso contingente de indivíduos que aderem ao seu uso de forma rotineira, somos levados aos seguintes questionamentos: O que faz o homem achar as simulações e simulacros interessantes? Por que as simulações são tão bem aceitas e procuradas? O que nos motiva a viver uma vida simulada?
Marilena Chauí analisando o poder dos meios de comunicação na sociedade contemporânea questiona o apelo da mídia à intimidade, à vida privada e o transformar atos e fatos em mera distração e entretenimento:

[...] certamente o ponto culminante da encenação e do simulacro foi alcançado pela rede de notícias CNN com a transmissão, ao vivo e em cores, da guerra do Golfo, em 1991, transformada em festa de fogos de artifício, sem mortos nem feridos, sem dor e sem odor. Um entretenimento. (CHAUÍ, 2006, p.20)

Obviamente a postura da autora a cerca de simulações e simulacros não se refere diretamente ao tema em questão, mas do ponto de vista geral podemos entender que o entretenimento pode justificar ou responder em parte estes questionamentos, e a boa aceitação dos simulacros reside em explicações psicológicas, pois no ambiente virtual é maior a possibilidade de uma completa realização, além do mais o simulacro pode apresentar-se mais palatável que a realidade, partindo deste pressuposto, o de amenizar a dureza da vida real, a indústria midiática e cultural disponibilizam tipos e tipos de simulacros. O usuário deve determinar as dimensões que os simulacros devem ter em suas vidas, os benefícios e os riscos devem ser mensurados com bom senso, pois todos em certa medida podem ser benéficos ou nocivos. Antes de pensar em propor um estudo acerca do The Sims, eu era mais um jogador que passava dias e noites diante da tela do computador, sem comer, sem dormir e ávido por novidades, coleções de objetos, pacotes de expansão; porém percebi que começava a falar das minhas crias virtuais com qualquer um, como se elas existissem no mundo real e fossem conhecidos de todos, além é claro de observar que o tempo que dedicava à realização dos sonhos, anseios e desejos no jogo, era o mesmo tempo que poderia estar dedicando à realização real dos meus sonhos, meus anseios e meus desejos. Essa constatação reforçou ainda mais a necessidade de me deter em um trabalho de correlação do game com as teorias da comunicação e a semiótica.

Semiótica no game

A relação com a semiótica em The Sims é inicialmente percebida no ícone que o representa, um losango verde. O símbolo aparece aceso na cor verde sob a cabeça de todos os avatares, e na medida em que o sim – personalidade virtual – deixa de ter seus desejos realizados ou suas necessidades satisfeitas essa cor verde vai se alterando para amarela e por fim vermelha. A cor verde indica que tudo está bem, os desejos estão sendo satisfeitos, as necessidades supridas e a vida do seu sim vai bem, o amarelo é um indicador de atenção, alguma coisa está errada, e precisa ser feita para reverter o atual nível de frustração, o vermelho significa alto risco, ou seja, o seu sim está frustrado, insatisfeito com a vida, mal humorado e conseqüentemente não será um aluno ou profissional produtivo e bem sucedido na carreira que escolheu, funciona como um semáforo do estado de espírito.
A figura abaixo é o painel inicial do The Sims 3, o losango verde pode ser percebido no canto superior esquerdo da tela.


O dicionário de símbolos[1] traz diversas explicações relacionadas ao losango, entre elas verificamos uma em potencial para explicar o uso deste ícone. A representação do losango significaria a junção, a união de dois mundos, um representado pela pirâmide superior do losango e o outro pela inferior, levando-nos a crer que estes dois mundos seriam o real e o virtual, mas é a psicologia que nos dá uma explicação exata.
O losango é uma representação do modelo de motivação homeostático[2], de acordo com este modelo, o corpo compara o estado de satisfação atual do organismo com um padrão de referência, e assim determina se há ou não uma necessidade.
Modelo de motivação homeostático


Dessa forma, a primeira metade do losango quer dizer que há um afastamento do padrão de referência, que irá gerar uma necessidade, essa por sua vez ativará uma motivação, que irá culminar em um comportamento voltado para a homeostáse, ou seja, o reequilíbrio do organismo ou auto – regulação. A segunda metade do losango, porção inferior, mostra que o estado atual do organismo está em consonância com o padrão de referência, sendo assim nenhuma mudança é necessária.

A comunicação entre os Sims segue um padrão que foi construído para ser entendido em todas as partes do mundo em que o game for jogado e, portanto, não sofrer rejeição nos mercados onde o inglês não é a língua nata. Os Sims possuem um idioma próprio chamado Simlish. O Simlish, que normalmente é chamado de língua, é na verdade um conjunto improvisado de sons que apresenta considrável consistência. Alega-se que a língua foi criada tendo como base a fonética presente no ucraniano e no tagalo (idioma falado nas filipinas). Assim, percebemos aqui, a formação de um sistema modelizante de linguagem.
Os diálogos se tornam inteligíveis a partir da representação de balões de voz, como nas histórias em quadrinhos.O jogador pode saber sobre o que eles conversam, não a partir de um texto escrito ou idioma conhecido, mas por meio de símbolos que são universais ou quando não, são de fácil associação com os assuntos, muito semelhantes aos diálogos que temos no cotidiano.
Outro aspecto interessante é a linguagem corporal e expressões faciais, os gestos e expressões freqüentemente indicam intenções e sentimentos. Quando um personagem inicia uma conversa você pode decidir sobre o que ele vai discutir, os assuntos são variados trazendo temas como tempo, saúde, economia, culinária, viagens, passatempos, ciência, mecânica, lógica, animais, política, carreira profissional, artes, negócios, família, astrologia e outros de uma vasta lista, cada assunto é representado por figuras especificas.

Se o interlocutor do Sim que iniciou o diálogo tiver os mesmos interesses o relacionamento de ambos vai se desenvolver, isso é mostrado através de uma figura representativa do relacionamento com um sinal de positivo na cor verde ao lado, caso contrário pontos negativos são acumulados, tornando aqueles dois Sims cada vez mais distantes, no caso de uma interação negativa a figura é a mesma, mas com um sinal de negativo na cor vermelha. Eles também têm autonomia para iniciarem diálogos um com o outro quando reunidos em grupos, independente do comando do jogador, como ocorreria em uma situação normal, um bom dia ou boa tarde que pode se transformar em uma conversa agradável.


Outra forma de perceber a semiótica no processo de interação e comunicação está no painel de desejos, aspirações, balões de pensamentos, e memória do Sim. Cada evento, bom ou traumático aparece na memória dele com o desenho que o representa e a descrição textual do evento, permitindo que o jogador viva os sentimentos do seu Sim, essa empatia normalmente gera apego e afeição. São muitos os símbolos apresentados à medida que jogo se desenrola e fatos novos vão acontecendo na “realidade” do Sim. A proposta é que a partir desse ponto, essa característica do game seja estudada de forma mais aprofundada. Por representar o comportamento humano de forma extremamente fidedigna, inclusive no aspecto da comunicação é que The Sims tem se tornado objeto de estudo, não só para comunicólogos, mas como as possibilidades de análise são as mais variadas possíveis, outras áreas também o adotam como objeto de estudo.



OBJETIVO GERAL
Estabelecer uma relação da comunicação usada no game The Sims com aspectos perceptíveis na semiótica.

OBJETIVOS ESPECÍFICOS
a) Propor mais um diálogo acerca da midiatização e cybercultura, apresentando o game The Sims como mais um elemento nesse vasto campo a ser analisado de forma mais detida;
b) Analisar no game aspectos como: formas de interação quando jogado on-line e off-line, metanarrativas e identificação de signos e símbolos;
c) Investigar aspectos relacionados ao apelo, ao erotismo, violência e consumismo;
d) Analisar as conseqüências quando os jogadores se identificam pessoalmente com os seus avatares, deixando de perceber as diferenças entre os dois mundos;
e) Determinar em que medida o jogo on-line pode promover a ampliação do círculo social dos jogadores;
f) Analisar a construção do espaço ambiental;
g) Analisar os sistemas modelizantes de linguagem presentes no game.



Esta monografia contará com um estudo detalhado do jogo The Sims em suas três edições, sempre propondo questionamentos e os respondendo no decorrer da análise, serão levadas em consideração as minhas experiências e observações enquanto jogador e consumidor do game.
Será estabelecida uma pesquisa exploratória e documental, e em seguida, uma leitura de textos teóricos e científicos, que fundamentem o tema proposto.
Também utilizaremos materiais coletados em sites de gamers acerca do jogo. Trabalharemos com enquetes e entrevistas de jogadores nas comunidades do Orkut que trazem o The Sims como tema. As imagens do objeto de estudo serão disponibilizadas.

REFERÊNCIAS

BAITELLO, Júnior. O animal que parou os relógios: ensaios sobre
Comunicação, cultura e mídia. São Paulo: Annablume, 1999;
BYSTRINA, Ivan. Tópicos de semiótica e cultura. São Paulo: CISC, 1995;
CHAUÍ, Marilena, Simulacro e poder: uma análise da mídia. São Paulo, Fundação Perseu Abramo, 2006.
CAILLOIS, Roger. Os jogos e os homens: a máscara e a vertigem. Lisboa:
Cotovia, 1990.
COELHO NETO, J. Teixeira. Semiótica, informação e comunicação. São Paulo: Perspectiva, 1983 221p.
CHEVALIER, Jean. GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos. , Rio de Janeiro: José Olympio, 2009.
DAVIDOFF, Linda L. Introdução à Psicologia. São Paulo: McGraw-Hill, 1983
ECO, Umberto. Sobre os espelhos e outros ensaios. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1989.
ECO, Umberto. SEBEOK, Thomas A. O signo de três. São Paulo: Perspectiva, 2004. 262p.
FELINTO, Erick. A religião das máquinas. Porto Alegre, editora Sulina, 2005;
HARVEY, David. Condição pós – moderna. São Paulo, Edições Loyola, 2009;
HUIZINGA, Johan. Homo Ludens: o jogo como elemento da cultura. São Paulo, Perspectiva, 2000.
MORAES, de, Denis. Sociedade Midiatizada. Rio de Janeiro, Mauad, 2006.
SANTAELLA, Lúcia. Comunicação e pesquisa. São Paulo: Hacker: 2001. 216p.
SANTAELLA, Lúcia. NÖRTH, Winfried. Comunicação e semiótica. São Paulo: Hacker, 2001. 246p.
SILVA, Dinorá Fraga da. VIEIRA, Renata (Orgs.). Ciências cognitivas em semiótica da comunicação. São Leopoldo: Unissinos, 1999. 184p.
THOMPSOM, B. John. A Mídia e a modernidade: uma teoria social da mídia, Petrópolis, Vozes, 1998.

[1] CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain, Rio de Janeiro, editora José Olympio, 2009.
[2] DAVIDOFF, Linda L. Introdução à Psicologia. Editora McGraw-Hill do Brasil LTDA - São Paulo, 1983.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Os Filhotinhos de Anta do Globo Repórter

A mídia televisiva é informativa, sem dúvida! Mas que tipo de informação você consome? Você acha que a falta de ética midiática se revela apenas quando o jornal exibe o tiroteio? O defunto? A poça de sangue? Ou matérias de capa como: “Tocou fogo no bilau do marido! Para se vingar de traição, Irene assou Salsicha de Francisco” – (extraído do jornal mais democrático da Paraíba, e só custa 0,25 centavos, agora ninguém tem mais desculpas para não ler). Tudo isso lhe parece apelativo e abusivo? Seus problemas acabaram! Todas as sextas-feiras você pode enfim, relaxar um pouco assistindo ao Globo Repórter, que só passa bichinhos fofinhos e para nós, seres humanos, é preciso aprender com os animais; com os papagaios que reproduzem discurso, com as antas, as pacas, as capivaras do pantanal, os camelos que tem as bolas em cima das costas e as vaquinhas que por onde passam deixam um rastro de bosta. Tão bonitinho, o filhotinho de anta...

Você é assinante de Tv a cabo? Ah, você acha que Tv a cabo é coisa de rico. Bem, é certamente algo supérfluo, se levarmos em consideração que mais da metade da população do Brasil paga aluguel e tem um orçamento apertado, precisa fazer a feira, pagar o ônibus ou a gasolina do mês, a água, luz, IPTU, IPI, IPVA, TCR e outras taxinhas modestas, pois somos cidadãos conscientes e precisamos rachar as despesas do condomínio social. Mas retomo o assunto, você não pode assinar Tv a cabo, então você assiste a programação da Tv aberta, inclusive a classe média já pode acompanhar os programas em sua nova tela de LCD comprada em 72 prestações.

Você gosta da programação da Tv aberta? A televisão mostra o que o povo quer ver? É informativa? Educativa? Ah, o Globo Repórter é bom! É muito importante saber, por exemplo, da existência do Grillo pau de Curicica. Pois bem, em uma sexta feira qualquer, estava eu zapeando com meu controle remoto e ao passar pela rede Globo... Antes de prosseguir gostaria de fazer uma ressalva, a cultura televisiva brasileira não se limita apenas as produções globais, entretanto, qualquer um há de convir que, algo em torno dos 80 a 89% dos brasileiros, inclusive os que dispõem de Tv por assinatura, estão com seus aparelhos ligados na emissora. Mas retomando, após zapear entre alguns canais dou uma parada na rede Globo, estava sendo exibido o programa de reportagens fofas Globo Repórter, que cedeu seu formato original ao Profissão Repórter, do Caco Barcellos e agora só exibe reportagens bonitinhas e saudáveis. Nesta noite, a chamada do programa anunciava algo mais ou menos como: “o curioso sapo cantor do Jalapão”, ou “o incrível acasalamento do periquito furta-cor da Tanzânia”, tinha ainda uma segunda pauta com uma nutricionista horrorosa, podre de gorda ensinando o povo a comer casca de banana, caroço de abacate, coroa de abacaxi e por aí vai. Em seguida pulo para o canal GNT – Globo News Television – parte paga da programação global, curioso o nome do canal ser em inglês, que me fez pensar na lógica do mercado e segmentação de públicos, afinal, quem não pode pagar Tv por assinatura, provavelmente não deve nem saber falar português, imagine inglês.
Enquanto na Tv aberta, a rede Globo de televisão dava aos seus milhões de espectadores o “papagaio furta-cor da Tanzânia”, para outros poucos que assistiam o canal pago era exibido um documentário fantástico: III Reich em cores, que diferença não? Por que na televisão aberta eu tenho que assistir sobre as propriedades medicinais da casca do pau de angico da Groenlândia, Big Brother, Caminho das Índias, enquanto na GNT eu vejo documentários tão importantes para o meu enriquecimento intelectual, para a ampliação dos meus acervos, aperfeiçoamento das minhas ferramentas críticas acerca do mundo e do país em que eu vivo? Repito a pergunta que fiz no inicio do texto que tipo de informação você consome? Que tipo de informação tem importância para você? Tanto faz, porque ninguém sabe a diferença entre periquito e papagaio, tanto faz, por que as havaianas veiculam um comercial ridículo com o ator Marcos Palmeira batucando na mesa do Botequim e fazendo chacota com a moça que vem falar da crise econômica, sabe por quê? Por que você pensa exatamente daquele jeito! Pra que eu preciso saber de política e crise se eu tenho o Armazém Paraíba vendendo barato e fiado? A casa Pio que vende tudo em 30, 60, 90, 120, sem entrada e sem juros, se eu tenho IPI reduzido, minha mulher já trocou a máquina de lavar, a geladeira, eu já troquei de carro, por que eu vou pensar na qualidade das informações que eu recebo quando os ministros do STF dizem que jornalismo pode ser feito por qualquer um? Besteira! Eu quero mais é um boteco, uma cerveja e uma havaiana nos pés, a propósito, um par de havaianas hoje em dia custam de 12,00 a 15,00 reais, e é fashion calçá-las, antigamente andar com uma nos pés era sinônimo de “falta de recursos financeiros para comprar calçados” sabe como a havaiana conseguiu mudar essa imagem? Mostrando na televisão que Rodrigo Santoro, Vera Fisher, Murilo Rosa, Fernanda Lima, e outros atores de novelas globais usavam havaianas, o que é que tem? Todo mundo usa!

Continue assistindo o sapo cantor do Jalapão e se considerando bem informado filho, ESSA É TÃO DEFENDIDA LIBERDADE DE EXPRESSÃO DESTE PAÍS.

Jornalistas, jornaleiros e gazeteiros na cozinha maravilhosa da Ofélia.

Aos JORNALISTAS que sabem cozinhar,

Aos diplomados e dipromados:

O dia 17 de junho de 2009 ficará para sempre lembrado na história deste país como o dia da legalização da ilegalidade, refletindo o caráter subjetivo e frágil da capacidade humana de emitir julgamentos, quando em uma decisão quase unânime, os ministros do Supremo Tribunal Federal, determinaram mediante justificativas, as quais beiram a mediocridade, que para o exercício da profissão de jornalista não é necessário possuir diploma universitário. De acordo com o ministro Gilmar Mendes, presidente do STF e personagem conhecido da mídia nacional, o jornalista “é como um cozinheiro, que não precisa de nenhum curso para preparar uma boa refeição, lhe bastando algum talento,” outro ponto tocante no discurso dos ministros, foi a tão defendida liberdade de imprensa, liberdade de pensamentos e idéias que devem ser “essencialmente livres”. Como é bom viver em um país livre! Aplausos para a democracia brasileira! Somos sem sombra de dúvidas o país mais democrático do mundo, nem para ser Presidente da República é preciso formação, quem dirá para ser jornalista! Desde o Ai-5 o jornalismo jamais sofrera tamanho golpe! Como conceber que qualquer pessoa exerça funções que deveriam ser privativas de um profissional treinado? Como alguém que não possui sequer o ensino médio, pode assumir cargos de editor-chefe, editor–executivo, repórter, colunista, redator, entre outras funções, que EXIGEM competência técnica e qualificação teórico - prática para o seu exercício? A liberdade de expressão nunca esteve ameaçada por conta dos cursos de jornalismo, ninguém neste país nunca foi impedido de publicar uma única linha, de expressar qualquer pensamento em nenhuma instância, onde então estava essa tão falada ameaça a liberdade de expressão? A repressão da ditadura militar era rígida, absurda e sem dúvida uma vergonha, mas o que foi feito por estes ministros não é diferente, a partir de hoje a impunidade conta com dispositivos legais para ser escondida e maquiada, pois deixaram de existir parâmetros éticos, que orientem e direcionem a conduta do mediador dos fatos sociais tão infelizmente tratado. A partir daí se torna fácil manipular, comprar, calar a boca no Brasil! Pois, segundo o dito popular, quem tem boca fala o que quer e provas somem com facilidade, basta apenas um cheque assinado. No país da corrupção, o jornalismo que já vivia uma fase difícil por causa dos tendenciosos e sua peculiar leviandade, agora corre o risco de cair em completo descrédito, por ser feito por qualquer um, de qualquer jeito, para vender imagens, idéias e conceitos que não são reais, para deturpar, para corromper. Pessoas que nunca leram um código de ética jornalística, que nunca passaram noites em claro analisando as teorias da comunicação, suas aplicabilidades, seus reflexos na vida cotidiana, pessoas que querem simplesmente ganhar dinheiro em detrimento daquilo que publicam, tem agora carta branca para fazer! É obvio que muitos diplomados mesmo conhecendo e tendo estudado tudo isso, podem ser inescrupulosos em uma medida ainda maior, mas se isto for motivo para anarquizar, o que vai ser feito então com o judiciário brasileiro? Decisão tomada para beneficiar empresários e grandes veículos de comunicação, rede Globo, Folha, Estadão. Observem como todos os donos dessas mega empresas festejaram essa decisão, que não é boa nem para diplomados nem sem diplomas, mas apenas para os empresários que irão ficar mais ricos, empregando aquele profissional que se submeter as condições salariais que serão impostas, mediante um conhecido discurso: se quiser é isso! Senão, tem uma fila querendo! Os absurdos não param por aí, agora é mais fácil amigos e parentes, assumirem cargos de jornalistas nos gabinetes pomposos de deputados, senadores, e ministros do STF, batendo o ponto todos os dias e aparecendo no trabalho uma vez por mês, só para recortarem jornais, fazendo clipping de qualquer coisa. Assistimos com tristeza a soma de mais um absurdo nas contas deste país, o país da copa, do turismo sexual, do desenvolvimento econômico galopante, da impunidade, da emergência social, do nepotismo, do Ai-5, da democracia, da bolsa família, bolsa escola, bolsa renda, bolsa analfabetismo, bolsa voto comprado, bolsa curral eleitoral, bolsa dentadura, privatização do ensino e saúde pública, da redução do IPI, que leva a classe média desesperada as concessionárias para comprar seu carro, lembrando muito outro período de desenvolvimento econômico, onde o corcel 73 era o rei absoluto nas garagens. Parabéns aos ministros do STF, sempre zelosos para com a liberdade de expressão.

Frederyco Freire Martins

JORNALISTA POR OPÇÃO, PRAZER E DIPLOMA, A MUITO CUSTO CONSEGUIDO!

quarta-feira, 18 de março de 2009

“A DOMESTICAÇÃO DO DIFERENTE” – UM OLHAR SOCIOLÓGICO SOBRE A PADRONIZAÇÃO DO COMPORTAMENTO HUMANO

Por Frederyco Freire Martins

Dentre os eventos mais significativos no curso do desenvolvimento humano, sem dúvida estão: a descoberta do fogo, da pólvora, a invenção da escrita e a revolução industrial. Destes, não julgo temerário citar o último como o principal, visto que, a partir deste período iniciou-se a conformação social hodierna. Entendo os anteriores como precursores imprescindíveis ao nascimento da indústria, entretanto, descobertas assim ocorriam em todas as partes do mundo, já o processo de produção industrial teve sua origem no continente europeu, alastrando-se posteriormente. A revolução industrial não apenas proporcionou ao homem produção em larga escala, mas agregava ideologias políticas, determinantes para outras revoluções de imensurável importância, além de um legado de mazelas, entre elas o agressivo colonialismo. Nosso estudo toma como ponto de partida o texto “A domesticação do diferente”, extraído do livro “ Diversidade Cultural e Mundialização” do escritor Armand Mattelart .
Inicialmente somos levados ao levantamento de questões inquietantes - acerca de um processo que, se não é visto por muitos, como homogeneização dos comportamentos humanos, mas é no mínimo, condicionante destes em grande medida - como: O que é domesticar o diferente? Como e por que domesticar o diferente? E a principal destas, que talvez escape da proposta inicial do autor, mas é de igual forma relevante, qual a razão de determinar padrões de normalidade e aceitabilidade, banindo a todo custo qualquer outro modo que se mostre dissonante? Assim ocorreu com muitas culturas indígenas, que lamentavelmente chegaram a uma quase extinção, visto que, conhecemos o seu legado, mas, não lançamos mão de certos elementos culturais em nossa vida cotidiana. Também os negros foram subjugados, mas seus hábitos são fortemente preservados, e presentes na nossa rotina; entretanto, o resultado dessa política de agressão ao diferente, é o ódio e preconceito que perduram por séculos, contra os ainda “diferentes” índios, negros, judeus, homossexuais, portadores do vírus HIV, pobres, gordos, muito magros; dentre tantos estereótipos criados e apontados como potencialmente nocivos ao padrão cristão e capitalista.
O colonialismo revestiu-se de uma armadura de bondade e altruísmo; com a desculpa de levar a luz de Cristo para os pagãos ao redor do mundo e os “civilizar”, países como a França, Inglaterra, Holanda, Espanha, Portugal, Itália e Alemanha partiram em suas missões civilizadoras e chegaram à África, Ásia e Américas com a obrigação moral de elevar essas nações de um estado primitivo a um desenvolvido, entretanto, sabemos que o objetivo era meramente econômico e consistia na extração de matéria prima, mão de obra escrava e a consolidação de novos mercados, consumidores de tudo que a indústria produzia ininterruptamente, “elevando” sim, o poder dos países colonizadores. Crendo na superioridade da sua cultura, os conquistadores europeus usaram de todos os artifícios “diplomáticos” que dispunham: imposição religiosa - jesuítas, companhia de Jesus, monumentos e altares, missas, nomes alusivos - suborno - escovas, espelhinhos, contas coloridas - estupros, assassinatos, espadas, baionetas, pólvora, fortalezas e canhões, sem falar no grande número de doenças espalhadas entre os nativos, que não tinham um sistema imunológico desenvolvido para suportar determinadas patologias e morreram aos milhares. Pensar no processo de colonização que foi empregado é como imaginar extraterrestres tecnologicamente muito mais evoluídos que a raça humana, se apoderando da terra e mudando tudo que conhecemos até então, impondo-nos a sua cultura, religião, modo de vida, promovendo uma “miscigenação interplanetária” e explorando a produção de gás carbônico - única coisa que produzimos o tempo inteiro, não nos serve para nada, e não há outro bem a ser explorado no planeta, já que o próprio homem destruiu tudo - A partir dessa dinâmica, ao longo dos séculos pudemos ver a verdadeira evolução, de um lado, países como a Inglaterra, Estados Unidos, Itália, Vaticano – ao qual, eu dou uma especial ênfase: é um mimo do capitalismo para a igreja, um mundo a parte, erguido com os metais nobres, as gemas preciosas, as especiarias e o sangue dos países expropriados; a maior demonstração de cooperação agradecida - do outro, Somália, Congo, Etiópia, Bolívia, Chile, Nicarágua, Brasil.
A domesticação do diferente, neste aspecto de choque e sobreposição cultural, encontra respaldo em teorias positivistas como a do “Darwinismo Social”, defendida por inúmeros pensadores, entre estes, o sociólogo Francês Émille Durkheim (2007, p.32, 91 a 101) e o inglês Herbert Spencer (2004, p.215 a 226) sugerindo-nos que a evolução social se dá em moldes semelhantes ao proposto na biologia por Charles Darwin, ou seja, o fluxo do desenvolvimento social ocorre em um único sentido, representando a passagem do estágio inferior para o superior, onde esta sociedade se mostra mais evoluída, adaptada e complexa, essas mudanças, como na seleção natural, garantem a sobrevivência dos mais fortes e evoluídos. “[...] Nas sociedades, assim como nos organismos vivos , um aumento de massa é geralmente acompanhado por um aumento na complexidade da estrutura. Paralelamente a integração que é uma característica primária da evolução, quer as sociedades, quer os organismos vivos apresentam em elevado grau a característica secundária, a diferenciação”. Ambos descrevem a sociedade como um organismo em constante adaptação e Durkheim chama atenção para o objeto da sociologia, os “fatos sociais” - que atuam sobre os indivíduos, independente de sua vontade ou adesão consciente – nesse ponto pensemos na sociedade cuja configuração em todos os âmbitos já existe muito antes de nascermos, e no momento da nossa inserção nesta sociedade somos obrigatoriamente levados a viver conforme o que já está determinado.
“[...] Quando desempenho meu papel social de irmão, esposo ou de cidadão, quando realizo os compromissos que tomei, cumpro os deveres que estão definidos, para além de mim e dos meus atos, no direito e nos costumes. Mesmo quando eles estão de acordo com os meus sentimentos próprios e sentindo-lhes interiormente a realidade, esta não deixa de ser objetiva, pois não fui eu que os estabeleci, antes os recebi pela educação. Do mesmo modo, ao nascer, os fiéis encontram já formadas as crenças e práticas da sua vida religiosa; se existiam antes deles é porque existem fora deles. O sistema de sinais de que me sirvo para exprimir o pensamento, o sistema monetário que emprego para pagar as minhas dívidas, os instrumentos de crédito que utilizo nas minhas relações comerciais, as práticas seguidas na minha profissão, etc., etc., funcionam independentemente do uso que deles faço. Tomando a cada um dos membros de que a sociedade se compõe, pode repetir-se tudo o que foi dito a propósito de cada um deles. São as maneiras de agir, de pensar e de sentir que apresentam a notável propriedade de existir fora das consciências individuais”.
Ainda cabe-nos citar Durkheim no que tange a conformação social, ele dizia que as espécies sociais evoluíram a partir da horda, que era a forma social mais simples, igualitária, reduzida a um único segmento onde os indivíduos se assemelhavam a átomos, ou seja, justapostos, iguais. Se para o sociólogo a horda era a forma social mais simples, e em contrapartida a essa sociedade atomizada, havia o potencial evolutivo; Deparamo-nos então com um questionamento incipiente, que pode denotar ausência de profundidade, conquanto se faz pertinente neste processo de conhecimento e aprendizado. Há possibilidade desta ação evolutiva já ter alcançado o seu último estágio, colocando-nos novamente em uma posição de indiferenciação, e continuamos, portanto, a ser uma variação da horda? É possível que a resposta seja positiva, visto que, vivemos em uma época de padronização, ou condicionamento dos comportamentos humanos.
Quanto ao aspecto econômico e financeiro observamos uma pirâmide social com delimitações claras e bem definidas, porém culturalmente – referindo-me ao cotidiano, aos valores morais, éticos, aspirações, discursos e predileções – somos absolutamente idênticos, em todas as variações de grupos, métodos e discursos, por mais que a ideologia seja diversa, a prática é a mesma, atua e vale para todos os membros do grupo de igual modo. Mattelart (2005, p.25) atenta para a dicotomia existente no termo e nocividade inerente ao espectro do nivelamento:
[...] O termo “nivelamento”, próprio dos revolucionários de 1789, só pode ser entendido no contexto da simbologia do nível. Figuras da igualdade, o nível e a régua são os atributos da Deusa filosofia, emblema do culto a razão. O nível remete à realização do ideal da igualdade civil, do “civismo universal”. Nos debates sobre a sociedade industrial, por sua vez, o termo adquire uma conotação negativa: uma sociedade composta de agregados monótonos, homogêneos e indiferenciados.
No inicio deste ensaio, enquanto contextualizava historicamente a homogeneização - ou se o termo não for de todo válido - o condicionamento cultural e comportamental, diretamente responsabilizava o sistema econômico, tendo como partícipe o fundamentalismo religioso, especificamente o cristão, por promover a cultura da não diversidade. Quando penso nessa questão nos nossos dias, continuo a vê-los como responsáveis – talvez, eternos e únicos – pela produção em série de seres humanos; pois quem ocupa a posição de lobista mor, defendendo a intervenção do estado, na criminalização de decisões pessoais como o aborto e a eutanásia? Interesses políticos não convergentes somado ao fundamentalismo religioso, que crucificou o próprio messias, pôs na fogueira Joana D’arc, antes aliada e defensora, levou Galileu ao tribunal e recentemente perdoou John Lennon, pela declaração de que sua banda era mais popular que Jesus Cristo. Qual a motivação que leva todos os homens do mundo levantar pela manhã, mesmo a contra gosto, e irem trabalhar ao invés de ficarem confortavelmente em suas camas até a hora do almoço? A necessidade de ganhar dinheiro, caso não tenham pretensão de permanecerem na margem da sociedade, fortalecidos pela conveniente pregação da igreja, que na sua incansável luta para manter a moral e os bons costumes de uma parcela, ratifica que o bom homem deve viver do seu suor e não comer o pão da preguiça. Já as crianças, adolescentes e jovens freqüentam escolas e universidades a fim de se prepararem para o mercado de trabalho, outros paralelamente exercem atividade profissional com baixa remuneração para usufruírem, enquanto não estão preparados, de algumas benesses, sentindo o gostinho do que o capital pode proporcionar, como: celulares, i-pods, laptops e internet, e como tudo está em “conexão” estes são os instrumentos que melhor caracterizam a cultura de massas; responsáveis pela difusão rápida e mundial das informações, modismos e ditames do sistema. O termo Mundialização empregado por Mattelart remeteu-me a década de 90, onde a internet era incipiente, não existia o hábito do e-mail ou MSN e os carteiros entregavam algo mais que as faturas dos cartões de crédito. Os orelhões faziam ligações interurbanas com moedas - “fichas telefônicas”, telefones fixos custavam uma fortuna, celulares eram regalias para os muito ricos e pesava algo em torno dos 900 gramas, o CD era tecnologia de ponta, assim como o “disk – man” (aparelho portátil de tocar cd) os computadores eram enormes, trazendo uma configuração que atualmente só serviria para jogar paciência. O professor João Batista Perles trata da importância do desenvolvimento tecnológico para a evolução dos processos comunicativos
[...] Para que a comunicação humana alcançasse o estágio atual, tanto em volume e formatos, quanto em velocidade, foram necessárias diversas transformações fisiológicas e processos tecnológicos revolucionários. Algumas mudanças aconteceram há tanto tempo que quase nunca são mencionados ou percebidos pelo homem, mas os seus traços se conservam e, vez ou outra, se fazem presentes nos gestos, expressões e ruídos que emitimos.
A globalização era o assunto mais debatido nas salas de aula, tema recorrente nas redações de vestibular, e tratado de uma forma que parecia algo mais no campo das idéias do que aplicável a vida prática, como um futuro ainda distante, nos moldes do desenho animado “Os Jetsons” - aliás, o Skype se assemelha muito ao videofone do desenho - e, no entanto tudo aconteceu em uma velocidade surpreendente, e é essa velocidade no acesso a informações, difusão de idéias e ausência de barreiras geográficas a principal característica da sociedade contemporânea, representando o papel de promotor das faculdades humanas, e visto com olhos desconfiados por aqueles que temem um futuro onde não julgaremos necessário expressar alguma individualidade e independência.

REFERÊNCIAS:
MATTELART, Armand, A Domesticação do Diferente, In: Diversidade cultural e mundialização, São Paulo; Parábola 2005;
DURKHEIM, Émile, As Regras do Método Sociológico, São Paulo; Martin Claret 2007;
SPENCER, Herbert, Os princípios da sociologia, In: Teorias Sociológicas os fundadores e os Clássicos (antologia de textos), Lisboa, fundação Calouste Gulbenkian;
GALEANO, Eduardo, As Veias Abertas da América Latina, Rio de Janeiro; editora Paz e Terra, 2002;
PERLES, João Batista – Comunicação: Conceitos, Fundamentos e História; Biblioteca On- line de Ciências da Comunicação – BOCC; Disponível em: acessado em: 26 de fevereiro de 2009.

Big Brother Plasil, agente não somos bichos, agente somos cultura!

SALVE, SALVE! São duas e quarenta e cinco da manhã, SALVE, SALVE! Estou com as pálpebras pesando uma tonelada, mas procuro mantê-las abertas com o polegar e o indicador, devido ao exercício da minha odiosa profissão, SALVE, SALVE! (isso é melhor, não salvar!). Cheio de segundas, terceiras, quartas e quintas intenções, inicio um diálogo com um colega de trabalho acerca do emético programa, cujos flashes ao vivo de uma festa eram exibidos na madrugada. Qualidade duvidosa, disse eu, mas porque será que está a tanto tempo reinando absoluto na grade da emissora? Resposta: (que me pareceu uma receita de bolo) intrigas, cenas picantes, gente bonita, paixões arrebatadoras, drama, notoriedade e uma grande soma de dinheiro envolvida; de imediato me lembrou Renato Russo em uma de suas músicas “... pegue duas medidas de estupidez, junte trinta e quatro partes de mentira, coloque tudo numa forma untada previamente com promessas não cumpridas, adicione a seguir o ódio e a inveja as dez colheres cheias de burrice, mexa tudo e misture bem, e não se esqueça antes de levar ao forno temperar com essência de espírito de porco, duas xícaras de indiferença e um tablete e meio de preguiça...” e a seguir a pergunta que vale um milhão: Big Brother é cultura? Resposta incisiva: Não, cultura nenhuma! Por quê? Porque só ensina safadeza e o que não presta! Fazendo-me pensar que no senso comum, é muito forte essa definição de cultura como sinônimo de erudição. Mesmo tendo ciência de que cultura é muito mais que erudição, não posso deixar de pensar no pobre Orwell revolvendo-se no túmulo em decorrência desta apropriação horripilante do grande irmão. Enquanto escrevo, minha memória vai indicando a trilha sonora, depois da Legião Urbana começo instintivamente a cantarolar Ultraje a Rigor... “Inúteis, agente somos inúteis!”
SALVE, SALVE! Calígula César, sádico dos sádicos, imperador implacável, e assim como os demais proporcionava pão e circo ao populacho, que se divertia nas arenas com as cabeças que rolavam, com as carnificinas promovidas pelos gladiadores e animais selvagens devorando carne humana; SALVE, SALVE o voyeur que vai até a varanda nas madrugadas, munido de binóculos e papel higiênico, SALVE, SALVE a vizinha fofoqueira que amanhece e anoitece debruçada na janela dando conta da vida dos outros. Mas afinal, a arte imita a vida, a vida imita a arte, a mídia produziu ou já estava produzido há muito tempo? Já que nada se cria e tudo se copia. Essa é a essência do BBB, nada mais que a essência humana. Todo reality show tem em comum, o objetivo de mostrar o trivial, gente “normal, fazendo coisas normais”, o gênero se tornou obrigatório na televisão brasileira e toda a emissora tem o seu. O Aprendiz, O contratado, troca de família, casa dos artistas, BBB, no limite, é o amor, ilha da tentação, o grande perdedor; todos versão de produtos feitos para a TV norte americana, alguns até que são bons e instrutivos como é o caso do The Amazing Race ou Extreme makeover, outros ficam eternamente sobrevivendo do clichê, caso do BBB, que traz em cada uma de suas edições um arquétipo para o deleite do expectador. Um gay, um negro, uma loira boazuda, uma morena bunduda, um troglodita musculoso e burro, um idoso, uma manicure, aeromoça, cabeleireira, dentista, cowboy, advogado, analista, médico, inglês fluente e in-fluente (Uiarniuou, uiarnesilver) gente com “pobremas” sérios de gramática e “sistema nervoso”. Gente “normal”, mas escolhida a dedo, para reforçar cada tipinho que é mostrado, generalizando, emburrecendo ao reforçar características, como se estas fossem determinantes absolutas no comportamento das pessoas; o nordestino tem que ter sotaque, a sapatão tem ser machuda, marrenta e lutar boxe, a bicha tem que ser pintosa, o musculoso e a loira necessariamente de baixo intelecto, alguém precisa falar brutalidades e assassinar a gramática o tempo inteiro para ser engraçado, não podem faltar um místico, uma piranhuda e um xexelento que não faz nada; na versão mais recente foram incluídos um casal da terceira idade, e se um deles não ganhar o programa vai chegar bem perto, que é para mostrar que nem sempre os mais jovens são os mais aptos, como no caso de outro programa da emissora, No limite, onde após as mais exaustivas provas de resistência física, uma gorda ganhou de lavada dos jovens atletas e sarados, que foram invariavelmente virar capa de Playboys e G Magazines da vida, já a gorda...
Sem querer dar uma de arrogante, entendo a importância das ferramentas midiáticas e dos estudos acerca dessas interações, mas sem um dramin por perto, eu não consigo dar uma espiadinha, não posso me dar esse luxo, pois além de não me interessar ou acrescentar, eu tenho problemas reais, com implicações reais na minha vida e não sobra paciência para os choramingos, lamurias e latomias que são motivadas pelas coisas mais banais, além dos exageros, reações artificiais, frases feitas e insinuações. Pobre Bial, qualquer dia desses, ele confunde o bordão e dispara um SOCORRO! SALVE-ME SALVE-ME!!!

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

O Retrato de um Dorian Gray Qualquer

"Estive com Lorde Byron e Augusto dos Anjos. Peguei a pena e comecei a escrever.”

Por Fred Martins

Estou farto de narrativas! Tenho música romântica, velas e incensos. Tenho um vasto acervo de livros que não leio, cd´s que não ouço e revistas empoeiradas; fotos não reveladas, planos não cumpridos e medos absurdos , tenho páginas e mais páginas escritas a mão em um livro de capa preta, das quais algumas rasgadas, provérbios, advérbios, verbos, substantivos e adjetivos que não sei empregar nos momentos em que mais preciso. Sou obsessivo, compulsivo e bipolar, a mim não faltam encargos a pagar e relacionamentos a consertar – as pessoas e minha coleção de discos. Ouço até enjoar, para em seguida comprar novos, recolhendo aqueles outrora preferidos à estante do desuso – Muita teoria e pouca prática conceitos superficiais e profissões odiosas. Engraçado o meu fascínio por pirâmides – embora não tenha nenhuma – base quadrada e triângulos convergentes, de medidas exatas, melhora ainda se levarmos em consideração o período em que foram construídas.
Estou farto do niilismo, do imperativo categórico e de momentos intimistas; chega de escritos que me remetam ao retrato de Dorian Gray. Neste mundo Hades, cheio de espíritos perturbados (obrigado Schoppenhauer!) por toda sorte de agruras, há instantes em que tudo parece distante de você, sua visão embaça lentamente, e os sons – sobretudo os mais enervantes – vão aos poucos se tornando inaudíveis. Só resta você e a reconfortante sensação de adentrar uma dimensão paralela, um labirinto cheio de metáforas e situações contraditórias, um universo de imagens felizes e infantis, fundidas com representações lisérgicas, cujos significados não interessam e as características você mesmo criou. Sendo assim é um território exclusivo de todos aqueles que pensam e agem como você, compartilhando de uma morbidade consciente, onde os elos físicos são dispensáveis e a dualidade é o selo de certificação da autenticidade. Só as pinturas, os desenhos as fotografias e as esculturas são superiores, inertes e inexoráveis ao tempo, em sua imortalidade “óleo sobre tela”.
Estou farto de narrativas! Primeira pessoa, segunda, terceira, decassílabos, monossilábicos e lacônicos como eu. Peço a Píndaro que me leve a conhecer sua poesia e a Safo seu lirismo e os encantos da ilha de lesbos, porque no caos a velocidade da luz se torna lenta e os olhos marejados ensinam o valor dos efêmeros momentos, pois somos todos fugazes como a personagem de Oscar Wilde, e cada um esconde nos porões e lugares mais obscuros o seu retrato, temendo que as pessoas percebam seus piores defeitos. Quanto a mim estou farto de narrativas e sigo vendo as pedras que choram sozinhas no mesmo lugar. Da próxima vez, prometo ficar com o caleidoscópio ao invés de me jogar no poço do jardim sem pé nem cabeça.

P.S Quero me mudar para o vigésimo quinto andar.
Jornalismo Três Estrelas

Jornalismo, astrologia e horóscopo. Relação mais que obvia com o Cinturão de Órion!


Por Fred Martins

Fundado há 30 anos, o curso de comunicação social, habilitação em jornalismo da UFPB, recebeu recentemente, devido ao seu alto nível, o conceito três estrelas pela editora abril. Na avaliação de âmbito nacional, realizada anualmente para a produção do “Guia Nacional do Estudante”, o curso figurava entre um dos melhores do país. O guia traz matérias, depoimentos, dicas, orientação vocacional e uma lista das melhores universidades e cursos, além de comentários sobre perspectivas no mercado.
O grau de excelência dos cursos superiores e suas respectivas universidades podem ser verificados pelo leitor em um pequeno Box, ao lado da matéria. Nele aparece o indicativo que vai de uma a cinco estrelas, o nosso curso obteve três; mais uma jóia para a coroa e um excelente marketing gratuito – ou seria gratuito? Resta-nos apenas questionar – o que não é nem um pouco descabido – quem são as três estrelas do curso de jornalismo da UFPB? Até sabemos e podemos citar, mas a ética não nos permite - temos ética? Duvido muito! Refiro-me aos queridos docentes, mais adiante o leitor entenderá - o fato é que a constelação é vasta, e três estrelas não é um número suficiente para esta simples e rançosa, porém verdadeira analogia; mas podemos sem muitos temores lamentar o fato. A seguir, o top list dos aspectos mais importantes analisados pelos críticos da editora abril no momento de premiar o nosso curso:
• Laboratórios de fotografia mofados e com equipamentos ociosos;
• Máquinas fotográficas da década de 80;
• Computadores do laboratório de jornalismo impresso e novas técnicas de comunicação (jornalismo on-line) sem conexão com a internet;
• Duas câmeras de vídeo (sem bateria de longa duração) para atender todos os alunos da graduação;
• Ilhas de edição inacessíveis, sendo o aluno obrigado a possuir computador de última geração com programa de edição de vídeo e placa de captura, caso queira ser aprovado em telecinejornalismo;
• Poderia falar também da ausência de uma simples impressora – importante para os alunos que não dispõem deste item em sua casa na hora de entregar um trabalho escrito;
• Ausência de salas adequadas para as aulas;
• Aprender diagramação na marra enquanto produzem um “jornalzinho anacrônico” que segue o mesmo padrão de 30 anos atrás;
Mas o melhor de tudo são aqueles “professores estrela”, que gritam , se descontrolam, tratam todos os alunos com desdém, os abordando de forma a subestimar e até mesmo agredir sua inteligência, muitas vezes aparecendo em sala de aula apenas quando o horóscopo do dia está favorável, e ainda culpando e penalizando os pobres pupilos por terem faltado aquela aula dada no melhor dia astral do mestre. Outro aspecto de suma importância analisado pela “critica especializada” deve ter sido o clima de “total harmonia” existente no departamento de comunicação da UFPB, a união é tanta que o departamento - com festas, comemorações e fogos de artifício - se dividirá em dois – DECOM e DEMID – ou seja: o núcleo dos professores do bem e o dos professores do mal, só não me faça tomar partido, pois tenho ojeriza a este fratricídio! Mas, importante frisar que isso requer diplomacia e jogo de cintura do aluno, pois se este ingenuamente resolver “cortar dos dois lados” e for descoberto, nunca mais é gente na vida, ou pelo menos no campus.
Se com tudo isso o curso é três estrelas só temos a comemorar, porque não quero nem imaginar como seria se só tivéssemos uma estrelinha. Talvez a estrutura moderna do departamento incluísse um porão do DOPS, fiel aos originais; e, por favor, sem demagogias do tipo: “O ensino público é assim, infelizmente” porque impostos absurdos servem para pagar salários e infra-estrutura. Até poderíamos discorrer um pouco mais sobre aquilo que para outrem são apenas “alguns” problemas de ordem estrutural, mas para o aluno representa a decisão mais séria da sua vida, que é continuar ou não em um curso desses, que definirá o seu futuro profissional.
Um mero guia que classifica cursos e vende fantasias não deve servir de base para que ninguém decida fazer jornalismo. Jornalismo é feito com paixão e acima de tudo vocação; se algum brilhantismo existe, ele é dos alunos, que suportam essas afrontas todos os dias e semestre após semestre. Parabéns ao curso três estrelas! Vamos agora lutar pelas cinco.

*Os problemas citados nesta crônica foram vivenciados por mim e minha turma - 2005.2 - quando assistíamos aulas em auditórios, depósitos, prefeitura universitária e éramos expulsos dos lugares o tempo todo por aqueles aos quais os ambientes estavam realmente destinados; carregávamos metros e metros de extensão para utilizarmos as câmeras ao gravar para o lab. de tele cine, as edições de vídeo eram feitas nas nossas casas, ou estranhos eram pagos para fazê-las, só tivemos uma edição do nosso jornal impresso, produzido pela gráfica (deveriam ser três) a versão on-line do jornal que pioneiramente projetamos não foi vista com importância e o LDMI não o colocou no ar, entre outros casos. Nada mudou e acho pouco provável que algo mude, infelizmente.